Publicado em

A PALAVRA

“A palavra é meu domínio sobre o mundo” 

                 Clarice Lispector.

Essa talvez seja uma das frases mais impactantes que li.

“A frase” – epíteto da perfeição.

A palavra já mudou o mundo, promoveu revoluções e guerras.

Endeusou homens e derrubou reputações.

Conscientizou gerações e disseminou, na mesma medida, o ódio entre essas gerações.

A palavra enaltece o espírito e enleva o ser humano ao limiar das lágrimas, de amor e de emoção.

Mas a palavra fere e mata, lentamente, o mesmo amor, quando acrescida da fúria insana e da raiva momentânea.

Clarice sabia do que estava falando… foi mestre, quiçá doutora com PhD no uso das palavras.

A PALAVRA E NÓS, ADVOGADOS

E a palavra – essa mesma – é a ferramenta com a qual os advogados aprendemos a trabalhar.

Foi com ela, nos bancos escolares, que nos descortinaram todo um novel mundo, de leis, de filosofias, de direitos e obrigações.

Foi com ela que nos apresentamos em nossas primeiras petições, feitas e refeitas, até que um mero pedido de juntada ficasse apresentável.

Foi com ela que, apreensivos, enfrentamos nossas primeiras audiências, enquanto sorríamos para o cliente, como se não tivéssemos receio de errar na palavra.

Pela palavra, subimos trêmulos nas Tribunas, para debater com os mais sábios e experientes no seu uso, e triunfamos, descobrindo que a ferramenta nos vestia à perfeição.

Com o passar dos anos, com o uso diário e constante, talvez, só talvez, tenhamo-nos esquecido da sua importância…

Ou será que, a tal ponto estamos acostumados com seu uso, que a ferramenta nos parece gasta, e passamos a usá-la sem o carinho, sem o amor, sem a densidade que ela merece…

O desuso enferruja, a produção industrializada desmerece a palavra, que, solta ao vento, vai aos poucos perdendo a intensidade do voo.

E com a perda da intensidade, com a repetição do vernáculo a esmo, esmaece o sentido da palavra, trazendo ao leitor culto, mas incauto, a impressão de prolixidade.

A SÍNTESE COMO CENSURA

Vejo a cada dia que passa, vetustas opiniões, movimentos por petições e sentenças limitadas, todas com ênfase na celeridade, pretendendo impor a brevidade, o resumo sintético justo a nós, Advogados, que, por definição, somos os mestres ferramenteiros da palavra.

E com tristeza, vejo jovens colegas pugnarem pela concisão, pela descrição de fatos, seguida do pedido pretendido.

A que ponto pode um direito ser resumido?

Até onde pode a paixão da defesa ser indexada em itens?

Quem poderá idealizar o número correto de caracteres que sejam suficientes para transmitir a importância e a angústia que aquela lide traz para nosso constituinte?

Ora bolas! Se da descrição do fato resultasse o direito, já teríamos nos buscadores da internet os mais graduados advogados e magistrados!

Não é da lavra legislativa, com a devida vênia, a construção, palavra a palavra, do molde da lei à importância da vida real.

Um processo, pequeno ou grande, simples ou complexo, não se impulsiona de ofício, mas da empunhadura do sabre do vernáculo com destreza, da defesa apaixonada dos ex-adversos.

Porque quanto maior for a habilidade dos esgrimistas, melhor e mais profunda será a decisão proferida.

Podemos perder, mas ao fim do dia, ao término de uma petição ou ao fim da sustentação na tribuna, é a convicção da nossa palavra que nos conforta.

Porque é nas nossas mãos que a palavra adquire vida e sentido, somos nós quem incendiamos a frieza da letra da lei, com o calor e a vibração da realidade.

Cabe a nós esmiuçar os códigos, elaborar e traçar a linha tênue entre a suposta certeza da norma abstrata e o caos concreto das ações e reações humanas.

É MEU PODER …

A noção do poder e da força da nossa ferramenta apaga o cansaço da mesmice e a descrença na banalização do sistema. Fomos ensinados a entender, ouvir e usar a PALAVRA.

Não podemos jamais trair nossa formação, porque sem nós, a palavra é nada.

Conosco, ela ganha contornos, sentido, inteligência.

Pois a nós foi concedido poder trabalhar com a arte e com a ciência, pois se ninguém discute que o Direito seja ciência, igualmente não há que se negar que a Advocacia seja uma arte.

… E MINHA ARTE!

Palavra
Palavra é poesia

E na nossa Arte não há palco demarcado, nem cortina.

Ninguém escreveu as falas ou as revisou.

E mesmo assim, a partir do sonho vivido de uma ou de várias vidas alheias, criamos a atmosfera e costuramos ações aos fatos.

E o resultado há de ser – obrigatoriamente – arte transmudada em Direito, para que se culmine em uma preciosa colcha de renda da Justiça.

Isso porque, a nós foi permitido entender que nada é tão simples como certo e errado; e que essa ambiguidade é a mola propulsora do próprio saber.

A nós foi permitido fazer da palavra a compreensão da vida, dos mais recônditos anseios, da dicotomia natural do ser humano.

Mas igualmente nos é exigido o uso magistral dessa ferramenta, na defesa intransigente do Estado de Direito, na desmistificação midiática dos conceitos fashion, e tipo fast food.

Se hoje nos tolhem a palavra, foi com Ela que socorremos a própria essência da Humanidade, ao longo dos séculos.

Serão sempre indissociáveis: a palavra e o advogado

Assim, para aqueles que pregam a redução das palavras, para aqueles que pensam que a função do advogado é apenas produzir um amontoado de frases, para aqueles que veem na Advocacia apenas um entrave no processo, meus sinceros e sentidos pêsames.

E um alerta: nossa arte-ciência, combinadas, não se calarão jamais, corporificadas pela enormidade da palavra, traduzindo-se em compreensão, em lealdade, em ética, em dignidade, em conhecimento.

A nossa palavra não acalentará ódios e nem iniquidades; a nossa palavra servirá de esteio à razão e à liberdade.

Essas são as nossas armas, esses são os nossos domínios.

 

 

O Jornal

Clarice Lispector

6 comentários sobre “A PALAVRA

  1. O texto excelentemente traduz a palavra como a essência do Direito e do exercício pleno da Advocacia !!!!

  2. Muito bom !!

  3. Muito bom . Apesar do tempo, do excesso de trabalho e , muitas vezes, da desesperança você mantém a poesia em sua vida. Que Deus a ilumine sempre.

  4. Adorei

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *