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QUANDO VOCÊ DECIDE QUE QUER SUA CIDADE LIMPA

QUANDO VOCÊ DECIDE QUE QUER SUA CIDADE LIMPA

O título parece paradoxal à primeira leitura. Afinal, quem quer que sua cidade seja suja? Conscientemente, ninguém.
O estabelecimento de um conceito claro para o que seja uma cidade limpa não é impossível de se estabelecer, embora padeça de alguns elementos de subjetividade.
Há cerca de quatro anos, uma renomada empresa de consultoria produziu uma ampla pesquisa onde, entre outros objetivos correlatos, perquiriu por amostragem populacional como o morador via sua cidade sob o aspecto da limpeza pública. A pergunta era: você considera sua cidade limpa ou suja tendo em vista os serviços de limpeza que ela possui?

Dois cenários se repetiram, de resultados diferentes para cada um porém imutáveis para cada um deles. Para primeiro cenário, foi escolhido local urbano com vegetação cuidada, edificações bem conservadas, pavimento conservado tanto das calçadas como das vias públicas, e, importante, sem sujidades lançadas no ambiente. Pois bem; nesse cenário, praticamente todas as respostas aprovaram os serviços executados e consideraram a cidade limpa.

Outro cenário urbano escolhido foi o de local sem vegetação aparente, edificações pouco conservadas/grafitadas, calçadas mal conservadas, pavimento das vias remendado, postes de iluminação com rolos de fios pendurados, e, importante, também sem sujidades lançadas no ambiente. Agora praticamente todas as respostas reprovaram os serviços e consideraram a cidade suja.

Qual a diferença entre os dois cenários sob o ponto de vista de efetiva sujidade urbana causada por abandono ou não recolhimento de resíduos? Absolutamente nenhuma. Duas primeiras conclusões óbvias: o peso do tipo de entorno/paisagem que envolve o entrevistado impondo conclusão subjetiva e, também, por decorrência, o desconhecimento ou mesmo o não recobrar da memória os efetivos serviços que são prestados à limpeza da cidade. Poucos foram os que mencionaram a atitude negativa da própria população com o lixo que gera e que, em pequenos pedaços – embalagens, bitucas de cigarros, gomas, papéis de balas, garrafinhas de PET, etc, – vão sendo deixados ao longo das vias públicas.

Esses serviços – tecnicamente chamados de zeladorias – tem sua execução amplificada à medida que se constituem vias e praças de grande circulação pública. A mais famosa avenida da cidade de São Paulo sofre dez varrições diárias… Se entendermos que a tendência de concentração urbana em todas as cidades é um fenômeno mundial, e que essa concentração trará cada vez maiores demandas em seu bojo –saneamento, educação, segurança, transporte, alimentação, saúde – devemos também nos preocupar com as pressões sobre o convívio em cidades limpas, saudáveis e que propiciem uma melhor qualidade de vida para seus habitantes.

O custo econômico de se tentar manter uma cidade limpa limpando-a cada vez mais é astronômico e com certeza tende a ultrapassar a capacidade de sua manutenção pelo orçamento público. Cabe a pergunta: essa mesma população conhece o quanto custa ao município executar esses serviços que são uma espécie de enxuga gelo? Qual é a sua posição em termos de magnitude frente a outros custos havidos com educação, por exemplo, ou saúde? Se tivesse esse conhecimento, ao mesmo tempo que sofresse alguma sanção pecuniária por mau comportamento ambiental, essa população iria preferir pagar mais tributos para continuar a assim se comportar ou escolheria deixar de sujar sua rua, seu bairro, sua cidade?

Claro, ações como as que levem a resultados almejados tem que ser planejadas, discutidas, formatadas, com inventários iniciais e formulação de metas, ampla divulgação e transparência de resultados, correções de rumo ao longo do tempo, passando sua atenção para pontos fracos uma vez fortalecidos outros, e assim por diante.

Bom que se observe que a varrição de vias e praças públicas, de alguma forma, sempre existirá, e por razões que dizem respeito mais a cada cidade em si, com suas próprias características. A própria varrição mecânica utilizada para serviços em vias de grande fluxo de trânsito e velocidade de veículos, hoje subutilizada, ganhará espaço. Mesmo assim, a função do varredor (ou do agente ambiental) será imprescindível. O que temos que reduzir é o excesso de serviços que são determinados pela quase escassez de comprometimento para com os espaços públicos. E quando afirmo espaço públicos, a ênfase é de que eles são de todos nós.

Aqui volto ao início deste texto. Seria o título que propus paradoxal? Ou seria trazer à população tudo aquilo que nos escaninhos dos gabinetes se formulam como políticas públicas e que não atraem para si o que mais necessitam: o grande aliado, a população.

Professor Ariovaldo Caodaglio

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